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Bienvenue Blog

O lugar secreto de escritos, artes, disparates, filosofias vãs, musicalidade de alma e merchan de segunda categoria.

Rosto no Escuro

por Laura SaintCroix, em 16.03.12

Bonjour!

Esse post é uma edição master, hoje é dia 07 de Maio de 2017. A data original é uma postagem velha e com escrito com erros. Eu republiquei isso no wattpad há alguns meses, e revisei de acordo. Vou respostar aqui, então. O nome antigo era "Entre Loucura e Lucidez". Super clichê, né? hahaha

O nome agora é Rosto no Escuro e tem até uma capa mais bonita.

Pode ser lido AQUI também.

 

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— Aquela noite era aniversário de minha filha, minha linda Lillie. Lembro-me dos cachos louros de seu cabelo, era tão doce. E sabe, senhora, ela gostava muito de flores, cravos, ela sempre me pedia isso de aniversário, gostava do cheiro... Mas, por quê? Aquela noite, os cravos, por que eu não consegui dá-los? Eles estão lá, no quintal! Senhora! Alguma coisa aconteceu, eu ouvi um barulho forte, e uma dor, eu me lembro... Eu me lembro! Senhora, entregue aqueles cravos à ela, por favor! Entregue! Eles estão em um vasinho no quintal! Por favor, espere, diga que sim, ainda não, não me leve, ahhh!

— Seu tempo se esgotou.

— Não seja tão duro com ele.

— Se eu não o for, quem o será? Esse espírito está aqui porque foi um assassino, você sabe.

— Eu sei, ele enlouqueceu. Lillie... Ele a matou, não foi?

— Sim, a menina agora está na Catedral de Espíritos, se recuperando do choque da morte.

— Está... Ah... Quando isso tudo vai acabar?

— Eu não sei.

— Isso foi uma pergunta irônica, não precisava responder.

— Eu sei. Eu me pergunto o mesmo.

Meu nome é Cristinne, sou loura, despreocupada, fumante e cansada. Dizem que estou quase louca. Meu colega, Victor, está enlouquecendo comigo.

— Eu digo, qualquer dia estarei sendo trancada como os daqui.

— Cris, não fale assim.

— Por que não? Você também, eu não quero ser internada aqui sozinha.

— Droga, francamente, você tem razão.

— Já sabia.

— Uh... Vou tomar alguma coisa, vem comigo?

— Não, ainda tenho que ver esses papéis.

— Está bem.

Já estava saturada de trabalhar naquele quarto escuro, a claridade de quando a porta se abria era aliviante, ao mesmo tempo que a claridade que passava por entre as grades da pequena cela de espíritos era angustiante.

Os espíritos que estão aqui na Clínica são loucos; em vida, assassinaram, torturaram e fizeram todo tipo de atrocidades, mas esqueceram. Agora, mortos, querem voltar a viver como se nada tivessem feito. Meu trabalho é ouvi-los falar suas loucuras, até que se aliviem e se deem conta do que fizeram. Pelo menos, essa é minha área aqui, cuidar dos esquecidos.

O pequeno diálogo que tive ali com meu amigo foi a última vez. Pois a partir daqui, vou narrar a minha loucura, o meu processo, o meu último paciente. Penúltimo, na verdade.

Naquele escuro interminável, o paciente entrou no cárcere. Era belamente mais estranho que todos os outros, sua estranheza era sua beleza, muito aparente perante os outros espíritos. Estava acorrentado, faço questão de descrevê-lo, pois nenhum outro estava acorrentado, nenhum outro tinha o traço do queixo tão belo. Estava cabisbaixo, a ponto de o cabelo cobrir seus olhos.

O diálogo com este paciente, me lembro... Como se fosse a última coisa que fiz antes de estar aqui.

— Muito bem, conte-me o seu problema. O que te aflige?

— Ora, era pra eu perguntar isso para você.

Ele começara a "consulta".

— Não, meu bem, hoje eu te pergunto.

— Então está bem, vamos fazer isso. O que me aflige? Estar aqui, é o que me aflige.

— O que aqui te faz ficar aflita?

— A escuridão.

— Não, a luz te aflige.

— Não, é a escuridão.

— Não, é a luz, porque se fosse a escuridão você já teria acendido a luz.

— Não há luz para acender.

— Há sim, há dois meses foi colocada uma luz ali.

— Hm... Como sabe?

— Eu vi. E não é verdade? Você teme a luz e isso é ruim.

— Pare de joguinhos, isso não tem nada a ver. O que está tentando fazer? Me intimidar?

— Você está ficando louca.

— Não estou, o louco é você.

— Não. Você começou a temer a luz quando ficou louca.

— Não sou louca e não temo a luz.

— Você sabe de que luz estou falando?

— A luz...

— Da mente, a que você não tem mais, a que você não quer mais. Você sabe, nossas ações são baseadas no que o nosso subconsciente capta. Seu subconsciente tem medo da luz, e isso está se refletindo nas tuas ações. Suas falas são baseadas na defesa do seu consciente contra ele.

— Quero sim!

Já estava cansada, quase afirmando. Ele estava certo? Qual era o problema dele? Quem ele havia matado e não se lembrava? O perfil era de um sociopata, um amnésico. Ou... Eu estava fugindo da minha lucidez? Mas eu tinha que negar.

Estava tão cansada.

— Viu? A defesa. A luz. Há quanto tempo trabalha aqui?

— Vinte anos.

— Ótimo.

— Chega, seu tempo acabou.

— Venha me ver em minha cela, ou no jardim.

— Não vou.

Eu estava à beira do choro.

— Está com medo de eu ter razão?

Um choque, era óbvio que não, ou... Eu estava tentando me enganar? Eu não o respondi. Ele saiu da sala acompanhado pelos guardas da Clínica.

Naquela mesma noite, tive a necessidade de refletir. Ele havia me posto para pensar. Durante todos esses anos, será que eu não estava pronta? Pronta para lidar com situações assim? Vinte anos que eu estava ali e eu já havia conversado com tantos tipos de loucos que eu não esperava alguém assim. Talvez isso tivesse acontecido devido à escuridão da sala? Por que eu não acendi a luz? Eu esqueci, é isso, eu esqueci, só isso. Foi o que eu pensei a noite toda, e não dormi. Por um reflexo, eu só havia me esquecido de acender a luz.

A tão curiosa morte de espíritos se dá assim: um estado latente de quase-morte, os espíritos são acordados, talvez, depois de algum tempo. Nesse tempo, embora não tão longo, eles esquecem definitivamente de quem são, esquecem de sua loucura, e mais ainda, de seus atos. Eu disse eles? Eu quis dizer nós, eu também sou um espírito, Victor e todos os que trabalham aqui, só não somos loucos. Assim como os que cuidam da Catedral, assim como os que estão na Praça de alimentação, assim como os que estão encarnados.

Não deu para aguentar, na manhã seguinte, sem me encontrar com ninguém, fui até a sala daquela pessoa.

Adentrando, ele estava sentado, como sempre, acorrentado, olhando para o nada, dessa vez era possível ver os seus olhos, escuros e sem brilho. Foi o que pude perceber.

Era raro que deixassem alguém entrar na sala de algum louco, mas este, por estar acorrentado, era permitido. Estranho, eu não sabia o que dizer, não sabia sequer por que eu tinha ido até a sala dele.

A sala estava clara, uma visão incomum para mim.

— Quem é você?

— Cristinne... Não se lembra?

— Você veio, sente-se.

— Sentar? Aonde?

— Aqui ou ali.

Aqui? Só havia o chão. Ele estava na única cadeira.

— Não, obrigada.

— Você decidiu?

— Decidir o quê?

— Em que lugar você quer ficar.

— Eu estou aqui.

Ao que se referia?

— No fim, você escolheu a luz, você está fugindo da escuridão.

— Eu sempre estive.

— Agora, a escuridão é o recôndito mais profundo de sua mente e você fugiu dela. Agora, você fugiu para luz, a luz que é a minha loucura.

— Não...

Por que eu vim aqui? Eu não tinha que ter feito isso, maldita vontade, parecia um verme.

— A luz da pequena cela de consulta, enquanto você ficava lá na escuridão, pensando, eu estava na luz, na loucura.

— Eu não estou louca... É você quem está dizendo isso! A escuridão não tem nada a ver!

— Eu não te acusei, o que te acusa é sua própria consciência! Você está fugindo de si mesma, você está se defendendo sem motivo, ou eu sou o motivo? Ou você o é. Você acha que eu estou te acusando quando, na verdade, você mesma está.

— Para! Eu não...

Agachei-me, aquilo já era demais, eu não devia ter ido até aquela sala, eu não devia.

— Já está chorando, que maravilha... Você é fraca, e a luz pode te ajudar. Você já está pronta para a luz. Vamos, saia da escuridão da sua mente, daquela sua sala e venha para a sala da loucura, a sala da sua lucidez, da luz. Eu fui só uma fagulha, a aticei com contrariedades.

— A lucidez não é uma loucura, o que está fazendo? O quê...? Eu não sou louca.

Dali eu saí correndo, para minha sala, para minha escuridão.

Era vero, ou eu ficaria louca pela luz, ou pela escuridão. Eu já não sabia se a escuridão era minha loucura que eu temia ou se era a minha própria mente; se a luz daquela cela era o que eu buscava, a lucidez, ou se era o brilho da loucura.

Enquanto eu estava deitada, me vi refletir mais uma vez.

Victor, eu não o encontrei mais, foi triste, mas ele foi embora daquele setor sem me avisar.

Hoje eu me pergunto se ele estava com medo de ficar louco, quando eu havia dito isso a ele, eu estava brincando. Mas acho que, no fim, foi verdade.

Na manhã seguinte, um outro paciente caiu em meus cuidados. Eu fui ouvi-lo, ele era um velho, era estranho como ele tinha um mau cheiro avassalador. Há quanto tempo ele não se banhava? Não, ele poderia se banhar, mas o cheiro fétido provinha de sua aura.

— Muito bem, conte-me o que te perturba, seu nome, se lembra de onde veio?

— Não, eu só quero saber o que estou fazendo aqui... Eu me lembro que morri baleado, mas o que faço aqui?

— Se lembra do que fez?

— Sim, eu matei uma mulher e fugi, a polícia atirou em mim.

— Você já tinha essa idade quando isso aconteceu?

— Não, eu envelheci quando eu estava aqui.

Espíritos não envelhecem, a mente dele imaginou isso enquanto ele estava aqui.

— Sim, mas você possui algum desejo, você deixou algo a ser feito?

— Não, eu só quero sair daqui. Já me perguntaram isso muitas vezes, isso aqui não é uma Clínica de reabilitação, não é um presídio... Eu quero sair.

Ele não era louco, ele sabia que não era.

— Muito bem.

— Eu não sou louco, acho que dá pra gente mesmo saber se a gente não é louco, né?

— Sim.

Não, não dá. Eu mesma não sei. Mas ele parecia até mesmo inocente.

— Então, eu não sou.

— Você tem medo de luz?

— O quê?

— Me responda apenas.

— Não, eu acho que luz é uma coisa boa.

— Sim, ela... É. Você está liberado, vou dar seu diagnóstico para que te soltem.

— Obrigado! Você é a primeira que acredita em mim!

Eu não respondi àquele sincero obrigado, fui fria. Eu estava... Não, eu não estava mais ali. Aquele senhor me deu a resposta de que eu precisava, a luz não era ruim, então eu iria para ela.

Saindo dali, eu fui até a sala do diretor e dei o diagnóstico daquele paciente, eu disse isso ao diretor em poucas palavras.

Fui até à sala daquele prisioneiro e o agradeci. Eu não tenho ideia de como meu rosto estava, talvez horrível, provavelmente horrível.

Havia um elixir que dava aquele estado latente no espírito, aquela morte. Eu já estava louca, então faria loucuras.

Na sala do elixir, havia o histórico de vida de todos os funcionários do setor, então eu me lembrei, lembrei que havia esquecido de minha vida quando estava viva.

O modo como eu andava no corredor da clínica já não era o mesmo, eu estava mais como uma morta viva, um zumbi. Eu não tive a oportunidade de olhar no espelho.

Milhares de pastas, então encontrei a minha, a que correspondia à minha história. Comecei a lê-la, desde a minha infância até a forma de minha morte.

Página por página, pude de lembrar do que acontecera, e tudo o que eu fizera. Minha sorte é que eu tinha permissão para estar ali.

Uma tarde de sexta-feira, eu havia brigado com meu marido por um motivo torpe e havia saído de carro. Na viagem, eu refleti e vi que a errada era eu, comprei um presente para ele em forma de desculpas.

Eu voltei para casa e o motivo da briga estava lá, aquela mulher ruiva, linda; eu havia brigado com ele por que achava que ele estava me traindo, mas por fim, estava mesmo.

O presente que eu havia comprado era um kit de golfe, pois ele amava.

Minha ira foi abrasante ao ver o homem que eu amava tendo os lábios tocados por outra mulher... Peguei um dos tacos de golfe e bati nela até que seu rosto ficasse irreconhecível, meu marido acabou por se ferir também, pois eu o atingi quando ele tentou me parar.

Eu havia matado uma pessoa e meu desespero foi tão grande que saí correndo para o carro, sem destino. Sofri um acidente, bati em um caminhão de combustível, tudo resultou em uma trágica explosão.

Eu vim parar aqui como uma louca que queria entregar seu último presente ao marido. Meu caso não teve cura então eu morri, e me tornei o que sou hoje.

No fim, eu estava louca pela segunda vez, mas não sei, será que o fato de eu saber de minha loucura já não me torna uma pessoa lúcida? Ou ficar pensando nisso é a loucura em si?

Eu ia tomar o elixir da morte, eu não queria ver o que eu fiz, não queria lembrar, não queria que aquele louco de olhos negros tivesse me despertado, mas não deu tempo, um assistente de um dos funcionários me pegou.

Eu desmaiei e acordei sob a luz de uma sala, uma cela. Fui interrogada e não respondi nada, me lembro de estar chorando e murmurando frases desconexas.

Vocês sabem onde eu estou agora? Numa cela, com correntes, pois sinto vontade de bater em qualquer um e a única coisa que posso concluir é isso, ficar contando a minha história para a parede, falando um eterno monólogo, afinal, ninguém vai responder a um louco, não é?

Eu só espero que aqui ninguém busque a lucidez que eu busquei, mas é claro que buscam, sempre tem algum pequeno canto da mente onde estão os desejos, as maldades, as tiranias e a lucidez. Sempre há um canto para o qual queremos fugir e um canto do qual queremos fugir.

O canto do qual fugimos é a escuridão, o canto para o qual fugimos é a lucidez, somos todos loucos, não acha?

— Chega de falar sozinha, Cristinne. Venha, sua consulta é agora.

— Agora? Droga, Victor, você sempre interrompe na melhor parte! O príncipe estava quase salvando a moça.

— O quê?

— Sim, a moça, aquela loirinha...