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Bienvenue Blog

O lugar secreto de escritos, artes, disparates, filosofias vãs, musicalidade de alma e merchan de segunda categoria.

Cinco microcontos que não foram para o concurso

por Laura SaintCroix, em 07.08.16

Boooonjour!!

Hoje escrevi quase 4 mil palavras e estou bem contente, já que foram três contos para minha ficha.

Falei mais cedo de microcontos (são micro pra caramba), e vou deixá-los aqui. *sapo psicótico intensifies*

Não posso publicar, ainda, os que estão no concurso, pois o resultado foi adiado novamente pela participação de muitos escritores. Ainda acredito que possa ganhar, então mantenhamos o mistério.

E sim, o Passageiros eu também não entendo mais, só entendia quando tinha acabado de escrever, agora já não lembro, então danou-se. Vão entender o porquê de eu não ter entendido assim que lerem.

 

Céu

De onde estamos não é possível ver o céu, não além de um buraco, por onde as flores enxergam. Só elas conseguem florir onde há lama, porque pessoas não foram feitas para florir no charco.

Tenho medo da aparência de um céu cheio de nuvens, azulado. Mas aqui está um céu diferente do das flores pequeninas, o céu dos olhos dele, que se move, é temerário e sempre, sempre sorri. Está começando a me contagiar com sua alegria. Mesmo insegura, acho que posso florir também, de mãos dadas com essa liberdade.

A noite veio e ele teve que partir. As flores simplórias dormem, só dormem, e eu me preparo para revê-lo. A manhã vem, colorida, elas a veem, estão vivazes de alegria, perfumadas. Sorriem. Bastara paciência e logo amanhecia para as flores. Mas por que o meu céu não retorna com o amanhecer também?

 

Passageiros

O cabeleireiro apara as pontas do cabelo de uma mulher, que conversa ao ler o jornal, esse que traz as notícias de uma manhã de inverno no hospital local, onde não puderam acudir todas as pessoas, que por sua vez não queriam saber da perda de dona Gertrudes, enfermeira, que perdera o periquito de manhã, comprado na loja de Fagundes.

Fagundes corta cabelo nas acomodações de Epitácio, que agora ajeita o cabelo de Amália, pois já terminara de aparar as pontas do cabelo de Lisa, que não sabe dos sentimentos de perda de Gertrudes, uma enfermeira do hospital sobre o qual lera no jornal, que não faz ideia de que Epitácio, seu marido, é amante de Fagundes, e que sua amiga, Amália, ouve as conversas de Lisa e nada diz a ela sobre sua má língua quando fala sobre a incompetência das enfermeiras. Apenas ri, essa Amália, por conhecer Fagundes, o marido de Lisa.

Pobre Gertrudes, que só tem inocência.

 

Rapunzel, Rapunzel

Pedi para Rapunzel que me jogasse seus louros cabelos, ao que ela disse-me: “Não posso!”

Estranhei e, com sobrancelhas enrugadas, repliquei: “Mas o que há contigo, amada?”

E ela disse-me: “Piolhos!”

 

Chiaroscuro

A tinta vermelha, profunda, úmida, é levada pelo pincel para o trono intitulado amor; simbólico, de igual maneira ao azul, nossa paz e, não coincidentemente, a tristeza. A cor encarnada foi nas vestes de um anjo excelso; a cerúlea, na composição das sombras de um anjo que está mau. Não havia o puro branco sequer nos olhos e o negro intrincado escorria manchado pela melancolia.

Eu amo observar Joannes enquanto pinta. Gostaria imensamente de dizer-lhe meus cumprimentos pela arte, relatar que não fracassou como pensa que sim, que seus parentes mentem, que seu talento é sem par. Então retrocedo e suspiro, triste, pela realidade, a de que ele não pode me ver, mesmo que eu esteja atrás dele.

 

Viver

Desamarrou o cadarço, pôs os sapatos de lado, asseou a blusa, tirou a poeira das calças. Era a primeira vez na semana que se sentia limpo. Olhou para os carros abaixo, num voom interminável de faróis ofuscantes. Ficou enjoado com a vista e altura, desistiu, vestiu o calçado outra vez. Riscou da lista os viadutos e tentaria com cortes. Talvez o que gostasse mesmo era o desafio de viver tentando, pena que ficava enjoado com sangue também.